domingo

Nao importa.

Nao importa se os ventos soprem nas direçoes contrarias, e o que os andares da vida, desmonte um dia. Porque sei, que posso construir uma piramide amanha.
Nao importa que os passaros cantem pouco ou muito, porque sei que um dia haverà um coral para ouvir. Nao importa o movimento da terra, porque o acompanhamento deste giro, é racional e nitido.
Nao importa que as relaçoes das pessoas terminem, porque um dia tudo começa uma outra vez.
Nao importa que todos os dias temos que trabalhar, as vezes cansada, com preguiça ou entao sem vontate, porque sei que o fundamento de tudo isso, traz apenas beneficios para meu futuro.
Nao importa que os planetas mudem, se encostem, e até um dia desapereçam, porque ainda ha milhares de estrelas que nao foram descobertas.
Nao importa que o tempo seja frio ou quente, porque todos os dias, aprendi a manter o coraçao quente.
Nao importa que um dia ouça uma mentira e chore, porque sei que a verdade esta sempre escondida no outro lado da moeda.
Ou entao, nao importa que as pessoas sejam ruins, afinal no fim de tudo, todos nòs seremos julgados, e quero encontrar todas aquelas que tentaram e ainda tentam viver da minha felicidade.
O que me importa é o café da manha as sete, é o sol e nao ter sol em dia de chuva, é o fenomeno da natureza trazendo as adoraçoes para a existencia humana.
Nao importa entao, os calafrios nos pesadelos, o sorriso sincero, os pés descalços na areia do mar. Porque sei que o alcance da paz, nao esta nisso.
O que deve importar de verdade, sao as magnificas atitudes que mudam todos os dias para algo melhor, uma mutaçao pràtica de energia e capacidades de reconhecer o que é certo e o que é errado.
E talvez um dia, descobrimos que o que era errado hoje é certo, e o que era certo é ainda mais satisfatorio.
Nao importa o ato, o que é importa é conjunçao do ato e do fato.
Entao, nao importa o que escrevo, importa mais aquilo que sinto.

sexta-feira

Andei pensando.

Eu nao sou Vicktoria, e isso que foi o impacto maior da minha vida. Vicktoria è apenas um nome, e eu nao sou um nome. Eu nao tenho qualidades e defeitos fixos para vida inteira ainda. Sao coisas que ainda devem ser elaboradas, assim como foram criadas. Descubro que eu sou um ponto de luz, e todas as luzes podem se apagar, isso, apenas com um movimento. E è este movimento que nao quero ter. Eu quero que essa luz dure, e para durar, devo descobrir aquilo que è fundamental e mais incrivel. Antes me perguntava muito "porque" para tudo, e essa minha elaboraçao para descobrir quem eu sou mudou, ou seja, significa uma evoluçao, e è exatamente isso a razao de nossas vidas.
Nao quero descobrir vidas passadas, porque as mesmas, se mostram presente em minha vida neste exato momento. Eu nao fui, sou e serei, eu sou e ponto.
Acho muito dificil esta questao, acho que é uma das perguntas mais individuias e mais "gostosas" de serem descobertas.
Por exemplo, antes achava que o verde com o azul, eram duas cores que nao combinavam, e hoje ja penso diferente. Acho que o cachorro nao podia falar, e descobri que eles falam, mas nao sò com seus latidos, e nunca pensei que eles falavam usando palavras obviamente, nunca fui tao perdida assim. Mas sei que eles falam, e falam comigo, assim como todos os outros seres da natureza, todos os elementos, até mesmo o azul do céu.
E este brilho que falo, é talmente importante, que parecem que os meus pès criam raizes com a terra. Porque é isso o que quero, criar as minhas raizes. Mas nao no sentido, de ficar parada, mas sim, uma raiz que se espalha para dentro de todos os conhecimentos que posso ter de eu mesma.
Descobrindo algumas coisas de mim, fui capaz de dar alguns focos. Pode ser que daqui alguns anos, essess focos nao tenham sidos os mais importantes, mas eram para eles estarem ali, na minha direçao, na minha historia.
Eu, sendo um ponto, e o ponto seguindo as orientaçoes dos meus raciocinios, torna-se um ponto de interrogaçao. E è exatamente este ponto de interrogaçao, que me faz andar cada vez mais adiante, parece que quando desvendo uma resposta para cada pergunta, este ponto de interrogaçao, torna-se exclamaçao. E assim, acendendo mais ainda o meu ponto de luz.
O que é mais incrivel em tudo isso, é tocar a memoria com todos os dedos e depois colocar na boca. Experimentem, è magico.
Com isso, descobri, o porque, da minha perda de romantismo. Porque ainda nem sei quem sou eu, como posso me juntar com um outro? Como posso ser eu-inteira para essa pessoa. Por isso que pra mim o amor é assim simples de ser resolvido, tanto que nao me interessa muito.
Acho que aprendi a amar de uma vez sò essa filosofia de descobertas. Parece que as maos estao coçando e a cabeça girando. Parece que o mundo esta parado, e gira apenas quando, eu quero!
Mesmo achando que este giro do mundo seja lento, na minha cabeça eu sei que gira, e por isso preciso girar no mesmo sentido, nos mesmos segundos e nos mesmos dias.
Tenho que aceitar que a lua è a responsavel dos meus pensamentos mais temidos e que o sol, mesmo que nao o veja sempre no inverno, brilha dentro de mim,
E' absoluto a razao que o Universo me deu diante desses fatos, mesmo que eu me sinta traumatizada com certos pensamentos, eu sei que isso pode me fazer bem.
Sò que pensar nao é para todos, alguns sao fracos, e desistem, mas desistem de uma forma eterna. Para pensar deve haver muita cautela, deve pensar devagar, mesmo quando os pensamentos se tornam abundantes.
Li esses dias que tem pessoas que nao gostam de pensar. E eu queria ser uma delas por alguns instantes. Mas quando me vi, logo desisti dessa ideia "pafanica", e retornei aos meus pensamentos.
Acho que temos que encontrar uma questao de equilibrio e realizaçao, onde tudo se encaixa com voce, e voce com o tudo.
Existem palavras que dei outros sentidos. Palavras que no dicionario é uma coisa, mas pra mim é outra. E essa mudança de significado é apenas uma manifestaçao do meu eu. Incrivel nao é?
As vezes penso que sou duas em uma, mas com tantos erros, prefeiro ser uma sò.
Ah, e è isso, estou pensando agora!

Homem de mascara azul


Homem de mascara azul

Ele era tão rápido em suas palavras que acabava sempre me deixando com restos de ideias. Trabalhava com os olhos, era o seu dom. Havia os dedos longos para tocar o fundo dos meus prazeres. Não tinha muitas ideias complementares. O meu discurso era sempre fechado.
Fazia de tudo para reconhecer os meus valores, mas colocava os seus como prioridades. Queria ser um espelho, sem rachadura, sempre limpo, sem nenhum arranhão. Eu descobri que ele era azul.
Usava sua mascara na maior parte do tempo que passávamos juntos. Seduzia o meu corpo com o seu. Sua energia era preliminar. O seu tato era tão atraente que os meus lábios deslizavam por todas as suas partes e regiões corporais.
Quando me deixava sem palavras era porque estava cansada. Ou talvez porque ele já teria usada a tatica de usar um discurso fechado. Essa coisa de discurso nunca me incomodou. Eu gosto de falar e colocar em parênteses aquilo o que me interessa, gosto também de dar foco a certo assunto. Mas, com ele, não tinha como.
Um dia começamos a falar da politica italiana e suas problematicas. Ele, muito sábio, começou a entrar na historia, eu ao invés, investi na geografia e nas dimensões do pais, e ele continuou na historia. Não havia vínculos para os nossos discursos.
O homem de mascara azul se esconde porque tem medo de descobrir que a mulher pode ser mais inteligente que ele. Mas a inteligencia é algo que não se compara, cada uma tem a sua. Como Dante teve a sua, Sócrates teve uma outra. Acho que nem "inteligencia" seria a palavra justa. Uso inteligencia, para entrar na conclusão do que o homem de mascara azul pensa.
Ele, por ser tao "inteligente", esconde suas maiores qualidades nisso. Uma mulher, no qual esta junto a ele, que pensa ou tem ideias mais claras, pode ser uma ameaça. Imagine em uma reunião de família, se entramos em um dialogo claro e sua mulher fala mais do que ele. Seria um absurdo!
Um dia fomos passar o Natal na casa de seus pais, não me recordo o ano. Porque coisas que não foram tão emocionantes, eu prefiro nem lembrar a data.
Neste dia, sua mãe estava completamente surpreendida com a minha presença, não sabia o que fazer para que eu me sentisse bem.
Eu, muito nervosa, sentei na mesa junto a eles e não abri a boca. Eu sou tímida, aliás, muito tímida com desconhecidos. Estava tentando mover as pernas da maneira que devia ser, e não apoiar os braços na mesa, meu maior defeito!
Ele começou a lembrar do Natal dos seus sonhos, talvez até uma fantasia. Porque dizia: "Lembra mãe, aquele Natal que fomos todos para a Suíça, e você me disse que o Papai Noel estava nas montanhas?". Digo fantasia, porque os pais não recordavam de nada disso.
O pai uma pessoa fechada, olhava os pratos, e tenho certeza que não via a hora de comer e depois da meia noite dormir. A mãe, andava de um lado para o outro, respondia as vezes: "Sim, eu me lembro". E eu, girando os olhos para a mãe que preparava a mesa, o pai que olhava o pernil e passava o dedo na borda do bolo, e ele que estava fumando cigarro na janela, com um pose de gala de novelas, falando mais do que devia.
A mascara azul dos homens é como o Oceano mudo, quando não há tempestades. Quando é mudo, è porque esta pensando, quando há tempestades é porque quer agradar quem esta perto ou então, falar de coisas que não tem nenhum sentido.
Não sou feminista, e não estou criticando os homens em si. Estou falando apenas da mascara azul que ele usa quase todas as vezes. Posso?
Sim, nós não estamos mais juntos. E isso não significa que sou uma mulher arrependida pelo término de nossa relacionamento, diferentemente, eu sou muito contente pelo inicio e pelo fim.
Eu gosto dos homens! Eles me trazem emoções e vida. Completa um pouco mais aquilo que ja esta bem. Apaixonar-se, talvez seja uma coisa um pouco difícil na minha situação. Eu não sou problematica, é porque tenho a complicada mania de analisar. Não é que comparo um homem com o outro. Não são todos iguais. Cada um usa uma cor, uma mascara para esconder a sua masculinidade, os seus defeitos de homem.
Assim como eles tem seus defeitos, nós também temos.
O azul me chama atenção pela sua pureza, pela sua igualdade com as outras cores, com a sua imensidão de valores e significados. A mascara é algo teatral, mas também pode ter diversos significados.
Não será neste breve texto que irei revelar o meu significado para a mascara, porque ainda não estou preparada. Mas, tenho certeza que antes ou depois, irei explodir de emoções, digitando todos os detalhes desta grande descoberta do mundo dos homens.
No entanto, eu não gosto de homem de mascara azul, por isso decidi, conhecer as outras cores.

De uma garota que conhece os homens.

segunda-feira

Antes de mais nada-


Antes de mais nada. 

Antes de mais nada, eu fecho os olhos e me arrependo. De palavras, que não deviam serem ditas, ou maldiçoes mal feitas. De procuras insensíveis, e desmoralizações inconsequentes.
De viver o tempo pela metade, de transcorrer a vida de maneira errada. Dos sonhos vazios e da complexidade dos pensamentos.
Antes de mais nada, abro os olhos para os caminhos desconhecidos, o novo, das novidades... Das surpresas. Das dimensões inalcançáveis, da sobrevivência humana.
Como a vida em duas partes, aproveitando cada sabor e fazendo de seu odor o meu sangue. Sim, o sangue. O meu tem muito sabor, é quente e não tanto liquido. Bate e rebate todas as horas dentro do corpo, fazendo de todas as minhas células, movimentos contemporâneos e mágicos.
Quando abri os olhos, o escuro já não estava mais ali, porque deixei a luz entrar com tanta satisfação, que não tive muito tempo para lembrar da escuridão. Deixei um deserto de areias amarelas secas e pedras grossas, para o mar. A água entrou em disparada por todos os cantos, até aqueles que eu ainda não conhecia. Machuca às vezes, mas faz bem!
Preces inúteis, rezas sem obstinações, no qual não impus os meus verdadeiros desejos.
Antes de mais nada, eu quero ser eu, e interromper o uso de mascaras carnavalescas. Introduzir o puro no verdadeiro. Porque não há algo mais sensível que a pura verdade.
Antes de mais nada, as minhas puras verdades eram obsoletas e isoladas. Não pertenciam ao caminho que vejo agora. Elas transformaram-se em pontas fundamentais para as minhas vitórias, para a minha evolução humanística.
De vez em nunca, deixo escorrer o sal dos olhos, porque me disseram que ainda faz bem. Faz bem quando o sal é puro, quando a dor dos olhos cansados chegam em exatidão. Porque quem não chora, não sorri.
Das rugas no rosto, o arco íris da vida. O que se transforma também pode cair, por isso que sou sempre atenta com o alinhamento das minhas asas e com o firmamento dos meus pés na terra.
Antes de mais nada, quero dizer sim, para ecc que disse não. Mas um não, sempre faz bem, mesmo sabendo que o sim é mais... intenso!
Nada é exaustão, quando precisamos de nòs mesmos. Quando sentamos como abelhas, e beijamos nossos pés em forma de agradecimento. Quando abrimos uma lei mística, uma grande revolução começa nas mais intocáveis particulas da nossa existência.
Antes de mais nada, eu canto o hino da igualdade e da felicidade serena. Mesmo não sendo tão serena assim, porque a serenidade é muito pouca para a felicidade que tomo em minhas mãos.
Antes de terminar este texto, quero dizer que viver, é simplesmente uma selva!

Victoria Veronezzi

quarta-feira

O pingo e eu


O pingo e eu

Das solidões diárias, eu entendo! E confesso que gosto assim, do meu silencio guardado com o tempo, dos meus espaços absolutos e das imaginações entrelaçadas e sobre naturais.
Da minha parte, eu não escondo nada. Também não fujo, porque fugir me traz uma vergonha imensa. Eu não escapo daquilo que eu tenho, eu dou um equilíbrio para aquilo que è meu.
Sempre quieta e no silencio natural da casa, eu sempre descanso o físico, deixando a mente trabalhar e voar por todos os redores. As vezes acompanho os passos, de um certo pingo, que começou poucos dias aqui.
Eu sempre sozinha, sem barulhos e no repouso silencioso cotidiano, fui disturbada por alguns segundos pelo pingo da torneira. "Pingo" por que eu o quis chamar assim. Verdade! Eu invento nomes para as minhas companhias, e isso me traz tanta satisfação, que me sinto alegre.
Pois então, o pingo, que restou por alguns dias aqui em casa, vinha sempre depois da janta. No primeiro dia, eu percebi e fechei muito bem a torneira, mas ele, por sorte, e as vezes para disturbar o meu silencio, sempre tornava.
Um novo som dentro de casa era uma coisa nova, e tudo que era fora do comum, eu fazia de tudo para evitar. Por que quando você repousa, você não quer o novo, você quer sempre as mesmas coisas, aquilo que você já conhece.
No segundo dia eu comecei me acostumar, porque ele entrava nos meus ouvidos tão delicadamente que me ajudava a pensar, talvez ele tenha entendido aquilo que tentava saber, mas ainda não sei.
Foi ai que o pingo ficou aqui em casa me fazendo companhia. Todos os dias, durante a janta, eu comia com uma vontade de ouvir o pingo. Lavava os pratos, escovava os dentes e corria para cama, me colocava debaixo das cobertas e era contar até três para ouvir o pingo chegar. Era divertido.
Só que então o pingo começou a frequentar mais a minha solidão, visitando o silencio durante as manhas, quando voltava do trabalho, e como sempre depois da janta. Eu adorava, todas as horas com o pingo eram divertidas.
Sai para comprar biscoitos um dia, e encontrei uma senhora falando de um hidráulico otimo na cidade. Um assassino eu pensei. Eu não queria que nenhum assassino entrasse na minha pequena casa e mata-se o pingo. Porque era de tanta importância para mim.
E então eu viciei. Entrava em casa e trancava bem as portas. Mas acho que o pingo não falava com os vizinhos, ele era muito reservado, e as vezes silencioso. Quando parava, eu saltava de uma horrorizaçao, achando que teria que fazer o funeral do medo de estar sem ninguém.
Ah sim, falei que viciei. Viciei em lavar pratos para ter o pingo por inteiro. Comia e ouvia o pingo, assistia as minhas novelas e sentia o pingo, pegava as cartas na caixinha e sentia o pingo assim meio silencioso.
Foi quando o pingo começou a ficar mais abusado, e falava por demais, as vezes falava mais do que eu.
Bateram na minha porta. Era o José, um velho amigo do trabalho. Convidei para entrar, mas antes guardei o pingo com uma expressão de cautela, quase pedindo para não falar, como namorado escondido no guarda-roupa, sabe?
O José entrou e sentou-se na cadeira próxima a janela acendendo o seu cigarro. Eu, fiz um café, mas não abri a torneira. Quando o pingo me viu, caiu na gargalhada, o pingo pingava de tanto rir da minha cara, afinal ele sabia que eu adorava lavar os pratos e xícaras, mesmo quando já eram lavados.
Tive um receio que tocasse o pingo e comecei a bater os pés. José me olhou com uma cara de assustado que achou que eu era meio doida. Eu disse que havia entrado em uma escola de sapateados, disse também que fazia muito bem a saúde, e ele quis ver mais.
Na verdade, o pingo não queria pingar, ele só ria, porque eu entendia o pingo, e ele me entendia. José o sentiu, coração pulou. Olhei com uma expressão de assustada, e o pingo ao invés de disfarçar, tão descarado ria mais ainda.
José me disse que minha torneira estava com um problema sério, tirou da bolsa umas ferramentas - armas atómicas - e começou a fuçar o pingo.
Meus olhos encheram-se de lágrimas, como criança que vê um passarinho morto. Eu preferi correr para o meu quarto e não escutar a dor do pingo. Coloquei os dois ouvidos debaixo do travesseiro e não quis sair dali.
Depois de alguns instantes, o velório. Ou ele roubou o pingo, ou realmente o matou. Ouvi passos. José abriu a porta do meu quarto, e além de tudo começou a me dizer palavras que não são tão fáceis de ouvir, disse que eu era louca, que era melhor ele ir.
Eu sem o pingo, tornando para a minha solidão, e ainda louca?
O que será de mim sem o pingo? Acho que encontro outro por ai.

terça-feira

O laço



O laço


De olhos fechados e a estrada ainda em claridade, corriam, a criança e o bebê. A criança desatenta não olhava os carros que encruzavam aquela estrada de campanha. Era pouco o perigo dos carros, mas era fatais as passagens dos caminhões que trambolhavam com suas cargas realmente pesadas. 
Não é que tinha uma certa direção, buscava cobrir o bebê das faíscas de águas que caiam e engrossavam-se com o vento que levava as folhas amareladas de outono. E ali, próprio em frente, tinha um portão. Entrou sem precisão. Não sabia, era incerta, mas era teimosa e entrou. A criança e o bebê. O bebê nada dizia, porque era conduzida da criança, já a criança só corria. Parou um passo para suspirar, suspirou e esvoaçou. 
O dia não era dia, era tremendo! Sabe quando não tem pés no chão? Era assim o portão. Seco, feio, enferrujado, um branco com preto, e fazia um barulho de "rig-rig-rig" que tremia até os pelos dos pés. Tudo vazio, o barulho dos carros, os trambolhões dos caminhões e o cintilante rumor  em seus ouvidos "rig-rig-rig". Que destinação! 
Se corria é porque devia, e se devia teria que pagar. O que roubastes pequena? Roubastes o pão que o diabo tinha amaçado como dizia a mãe. 
Um lago ali não tinha, a terra não era fria, o que eu faço com essa menina? 
Poucos passos um espaço sòlido, uma pedra com medidas improporcionais, era estranha, porque era escura e era clara. Isso! Seria "Clara", pelo menos o bebê morreria com um nome. 
Das faíscas a garoa, da garoa a tempestade, mas sem raios, porque seria um conto muito aterrorizante para uma criança. Os raios sempre assustam as crianças. E ela não queria assustar-se. 
Colocou em cima da pedra o bebê, e não a fez chorar, o pouco leite que saia, era de um egoísmo não considerado egoísmo, um egoísmo, assim, só por dizer, como diziam as tias. 
Um cinza escuro sobre o céu como o ultimo dia de uma borboleta que acaba de receber a sua vida, nasceu um dia e já morreu. Como assim gente? Já morreu? Penso que era borboleta
A criança ainda esta viva e a Clara já morreu? 
Corre depressa, porque a maldição sempre vem, pelo menos é o que sempre andam dizendo por ai. E neste momento, quem é que liga para maldiçoes. Maldição é coisa de cinema. 
Mas, alguma coisa esqueceu sobre o corpo gelado do bebê. Sim! Era um laço. Agachou-se e tirou seus cadarços, não se sabe se era para correr melhor descalça, mas aproveitou e fez um laço nesta pedra, e ali ficou a borboleta, sobre a preda e com o laço. 
E a criança? Ninguém sabe! 


quarta-feira

Eu estava ali.


Eu estava ali.

Desci dois degraus, e ainda estava próxima ao teto. Sentei, porque a escada me fazia companhia, coloquei as mãos no bolso, e ainda tinha um maço de cigarro, abri, os olhos quase adormentados e o coração ainda batia forte. Tem ainda um! O isqueiro? A minha própria mente, era o fogo que acendia aquele cigarro. A fumaça, voava e saia pela pequena janela que havia a minha frente. Aquela mesma janela, mostrava que a lua ainda brilhava. Nos meus olhos, aquela coisa de criança, de olhar para lua e achar que estava tão perto de mim.
Peguei o celular, mas não liguei pra ninguém, muito pelo contrario, eu o desliguei. Passos lentos. Mas sobe ou desce? Se sobe penso que não desce, porque era tão frio, os passos eram tão quentes, mole, estranho, sabe? Um passo dois silêncios, três passos, uma pausa, quatro e cinco de uma vez. Mas essa pessoa bebeu hein!
Eu obtive uma descoberta, este edifício tem quatro andares, se já subiu esses degraus, e o eco chega a mim, então è porque sobe. Arrumei o vestido com as pontas dos dedos. Sujei um pouco de Whisky durante o percurso até o lugar onde estava. Eu não cai tanto assim, foram dois passos sem silencio, no quarto a cara no chão. Coisas naturais, que machucam, mas depois você nem sente. Ah sim. Os passos, lembrei.
Eu não estava assustada, eu estava preparada isso sim. Se era homem eu queria ver toda a fisionomia, mesmo assim no escuro. Se era mulher, a gente bebia uma tequila. E se era uma senhora? Alias, onde estou?
Ai - sem interrupções - a sombra em mim. Que medo, desconheço! Era tão misteriosa, que até esqueci o cigarro cair. "Oi" Oi? Mas como Oi? Não te conheço.
Os olhos que este homem tinha era uma coisa de admirar-se, mas também só os olhos, porque o coração a gente não sente nessas horas. Por um momento de segurança coloquei a garrafinha de cerveja do meu lado, qualquer coisa, sao vidros quebrados.
Mas não precisava disso. Ele não aguentava com o corpo que rastejava no muro, então nem posso imaginar algo do genero. Mas, o pessimismo faz parte do pânico - quem disse? Ah, eu não sei.
Então veio os embrulhos no estômago, não sabia se era frio ou fome. E este ainda, senta do meu lado e me pede um "gole" da minha cerveja. Ja era pequena, mas com ele foi mais divertido.
Além dos olhos o sorriso também atraia a minha euforia alcoólica. Os seus traços juntava-se com os meus,e quando era para abaixar, abaixávamos juntos de mãos dadas e tornávamos como dois loucos perdidos no nada.
Sabe, ele me beijou! Mas não era beijo de menino. Suas mãos eram assim pesadas, como a de um homem, tinha até pelos no rosto. Passei meus dedos em sua nuca e senti todo o arrepio ultrapassar o seu corpo, conectando com os meus.
Daquela noite eu lembro disso. No final, foram passos, de quem desce, disso eu sei. Um dois e mais três, depois foram quatro e cinco e o seis. E os outros, isso eu já nem sei.
Continuei ali - sem fôlego e sem palavras - mas também se havia, não havia ninguém ali que eu poderia falar. Eu me ergui, tentei o um dois e três, e já estava no décimo quinto, correndo a saída daquele edifício. Os meus pés não eram descalços, mas o chão batia forte nos meus dedos, que parecia cada vez mais difícil correr e me perder na manha que começava, na cidade dos meus sonhos, e nos meus pesadelos que transforma esses sonhos em gargalhadas imortais.

Victoria Veronezzi